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Formol nas unhas: entenda porque a substância pode fazer tão mal

Durante todos esses anos de trabalho no ramo manicure, acabei me deparando com várias crenças que nasceram algum dia e se estenderam por anos entre muitas pessoas. Que esmalte escuro fortalece as unhas, que óleo secante seca o esmalte, que existe unha oleosa e que ela precisa respirar, que alho, cravo e casca de ovo na base fazem dela a melhor base da vida (aliás, farei um post sobre mitos porque esse assunto rende!) e, claro, que base com formol é a melhor base do mundo.

O uso de formol na indústria cosmética é amplo. Desde alisantes de cabelo até, claro, os endurecedores de unhas. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária – a ANVISA – regulamenta o uso da substância em uma concentração de 0,2% a 5% – o que acontece é que muitas pessoas acabam “batizando” a base com muito mais do que o permitido e comercializam a base indiscriminadamente. Folhetos explicativos de tais produtos até alertam para o fato que “se arder, é normal – são as vitaminas entrando nas unhas” – bom, não é isso. É bem pior.

Recebo diariamente questionamentos sobre o uso de bases com formol. Para explicar em detalhes e falarmos mais sobre esse assunto que merece muita atenção, chamei o Dr. Miguel Ceccarelli – dermatologista especializado em doenças de unhas. Conheci o Dr. Miguel pelo Instagram – que tem um conteúdo sobre unhas, cabelos e pele muito bom – @dr.miguelceccarelli – começamos a conversar sempre e claro que precisei convidá-lo para assinar essa matéria comigo. Muito obrigada, Dr!

O QUE É O FORMOL?

É uma mistura homogênea composta por água e pelo menor aldeído existente, o metanal. formol é considerado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer como um fator de risco para tumores e até para malformações no feto. Ao entrar em contato com células saudáveis, ele desencadeia mutações que às vezes levam a anomalias perigosas.

Nos cabelos, o formol age como uma barreira de proteção, em uma espécie de lâmina, impedindo a entrada de qualquer agente externo. Ou seja, os cabelos permanecem lisos e “comportados”, mas sem receber nutrientes, hidratantes, umectantes e vitaminas, que são essenciais para a saúde dos fios.

Mesma coisa com as unhas: o formol penetra a placa da unha e pode causar alguns efeitos colaterais como descolamento da unha, dor ou sensibilidade e sangramentos de intensidade variada, já que ele altera a estrutura das unhas. O uso crônico pode levar à formação de uma pele dura embaixo da unha que dificulta o seu corte, além claro, de ser uma substância de algo grau alergênico. 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite o uso de formaldeído em concentrações até 5% com a função de base fortalecedora para as unhas e, em quantidades menores, como conservantes de vários cosméticos (concentração de 0,2%), então não é necessário ir ao dermatologista para obter uma receita deste produto – mandar manipular-lo ou encontrar para venda é simples e rápido. Fora, claro, as bases vendidas sem notifição da ANVISA com concentrações altíssimas da substância. 

“Minha unha é fraca. Devo usar formol”?

Se você tem unhas fracas, usar base com formol não funciona.

O formaldeído é uma substância de algo grau alergênico – se você tem propensão a desenvolver alergias, essa é a primeira contraindicação. Por ser usado em baixa concentração em diversos esmaltes, ele acaba sendo a principal causa de alergia ao esmalte. Em segundo lugar fica o tolueno.

Entender como o formol funciona é importante: a ligação de proteínas (queratina) é aumentada por ele – queratina é o que se formam as unhas e isso faz com elas se enrijeceram – ou seja, ficam mais duras. Por fazer isso à custa de água, a unha fica desidratada. Sabe quando você sai do banho, da piscina e do mar e suas unhas estão moles? Isso quer dizer que sua está com excesso de água e, portanto, hidratadas além do normal. Essa seria a única indicação para o uso de formol – mas não precisa usar, já que se estiver com base (sem formol), esmalte e top coat (tudo sem formol), sua unha não receberá esse excesso de água – ou seja, ela estará protegida e não ficará mole. Por isso digo que unhas esmaltadas são unhas protegidas. É normal relatos que as unhas quebram depois de lavar o cabelo, por exemplo. Na maioria dos casos, a pessoa estava sem esmalte e tinha unhas bem fraquinhas. 

O uso de base com formol acaba apenas acentuando o problema de unhas fragilizadas porque isso acaba as desidratando, ou seja – ele rouba a pouca água restante dessa estrutura. Ficam duras? Sim! Mas muito quebradiças e descamando. Unha dura não quer dizer unha saudável. A unha precisa ter flexibilidade justamente para não quebrar. 

O problema se agrava quando é seguido pelo aumento da base com formol – concentrações acima dos 5% permitidos – achando que isso irá alterar a situação. Muitas vezes a pessoa não se dá conta que é o formol que está causando o problema. Culpa o uso excessivo de esmalte, o removedor e até mesmo algum problema de saúde (às vezes, inexistente). Infelizmente existem para vender bases que praticamente são apenas formol. Recebo diariamente relatos muito tristes sobre o uso indiscriminado de um produto cuja venda é proibida e é feita através de pessoas sem notificação da ANVISA (sim, pessoas. Nem são indústrias). Desconfie de produtos “milagrosos”, sem notificação da ANVISA, sem indicação de composição, sem número de processo dentro da ANVISA, sem químico responsável e que no folheto de instruções indica que “se doer, é normal” – não, não é normal.

Um outro problema que o uso crônico do formol pode ocasionar é o aparecimento de pele dura embaixo das unhas – impedindo o corte sem dor. A pessoa é obrigada a deixar as unhas mais compridas do que gostaria pois sente dor e apresenta sangramento ao cortá-las curtas. Além também que o uso prologando da substância pode tornar as unhas amareladas e também doloridas.  

Como escolher uma boa base? 

Hoje, felizmente, temos no mercado várias marcas que produzem esmaltes e bases que seja free ou hipoalergênicos – ou seja – livres de substâncias com alto grau alergênico. Entre elas temos o formol (no rótulo aparece como formaldehyde), tolueno (tolueno), DBP (dibutilftalato), resina de formaldeído e cânfora.

As pessoas que desenvolvem alergia ao formol ficam com lesões vermelhas e que coçam ao redor da boca, pescoço e pálpebras. Nesses casos, é necessário evitar esse tipo de base e até mesmo esmaltes comuns que levam formol em sua composição, seja como conservante ou como resina formadora de filme.

Portanto, qualquer base que você escolha que seja free ou hipoalergênica, será livre das substâncias acima citadas. Ainda tem dúvidas? Ler o rótulo é importante! Sempre tiro uma foto e dou zoom, caso tenha alguma dúvidas sobre a composição. 

Como indentificar o formol na base? Procure no rótulo por: FORMALDEHYDE ou FORMALDEHYDE RESIN

Dr. Miguel Ceccarelli

Perguntei ao Dr Miguel as dúvidas que sempre recebo para, que ele médico especialista, pudesse falar em detalhes sobre o formol.

• Formol fortalece as unhas?

DRMC >> O formol (a forma líquida do formaldeído) é usado como um antimicrobiano, conservante e endurecedor em produtos para unhas. É uma substância que muda a estrutura de unha, mediante um processo chamado cross-linking  da queratina (uma união muito forte entre proteínas). Essa união oferece um aumento na rigidez da unha, diminuindo a maleabilidade e alterando a resposta delas à umidade – essa é a razão pela qual se apresenta como um produto atrativo para as pessoas que sofrem de unhas frágeis. O problema é que o uso abusivo do endurecedor com formol termina gerando o efeito contrário. Isso é relativamente comum (quanto maior a porcentagem, maiores os efeitos adversos) e é um problema de saúde pública já que são fáceis de comprar em qualquer loja da internet. Eu gosto de dizer que realmente a unha vira um diamante, mas no mal sentido – as unhas ficam eventualmente tão duras que podem quebrar ou descascar com facilidade. 

• Quais os principais danos que o formol pode causar às unhas ?

DRMC >> No caso das unhas, o mais frequente é a irritação, que aparece ao redor e embaixo da unha (o leito ungueal, onde a unha “deita”) se apresentando como ressecamento, dor, inchaço e aumento da sensibilidade, o que pode afetar áreas da pele em contato com o esmalte, como nas pálpebras ou no pescoço. Podem aparecer ou se intensificar outros sintomas, relacionadas a irritação que o formol causa nas mucosas da nariz, olhos e boca, causando rinite (“nariz entupido”), falta de ar, coceira, dor de garganta, vermelhidão ou manchas ao redor dos olhos e inchaço. Esta sensação de irritação, pode aparecer imediatamente durante ou depois da aplicação ou um tempo depois.

Além dos efeitos adversos de se expor repetidademente, temos pessoas que desenvolvem alergia, e estão impossibilitadas de usar produtos que contêm a substância. Para esse grupo de pessoas, também existem diversas opções dos chamados esmaltes hipoalergênicos que não contém formaldeído, e que estão disponíveis atualmente no mercado (classificadas em -Free dependendo do número de componentes retirados: 3-free, 4-free, 5-free, 7-free e vai).

É importante saber que desde o 3-free, já não temos formol (junto ao dibutilftalato-DBP e o tolueno), mas é só desde o 4 ou 5 que o esmalte fica sem resina de tosilamida-formaldeído (TSFR), que também frequentemente causa alergias.

Fale mais sobre o formol e seu uso indiscriminado nos cosméticos e o risco disso à saúde.

DRMC >> O formaldeído, uma substância produzido pelo corpo naturalmente quando processamos alguns aminoácidos (da ingesta) e que se encontra presente numa série de produtos: plásticos, resinas, tecidos, materiais de construção, cosméticos, medicamentos, etc. Mesmo quando é muito usado na indústria, tem sido classificado como uma substância que causa câncer, além do que falamos das alergias e irritação.

Em geral, isso é particularmente complicado para profissionais da saúde, construção civil, e no caso das unhas, profissionais da estética como nail designers e manicures, que apresentam exposição a vapores acima do permitido de substâncias voláteis além do formol, pelo qual é necesaria uma boa ventilação nos locais em que trabalham.

• E no caso dos cosméticos?

O formaldeído na legislação brasileira pode ser usado como conservante (até 0,2% de formol), e como tal é muito raramente usado em produtos cosméticos, mas os conservantes que liberam lentamente formaldeído na presença de água são amplamente usados ​​em muitos (imidazolidinil ureia, diazolidinil ureia, DMDM ​​hidantoína, etc).

É importante lembrar primeiro, que uso de formol em qualquer produto para alisamento tem sido proibido pela ANVISA. A razão da proibição? As quantidades usadas pra esse fim são muito maiores, pelo qual o risco de inalação é também muito maior. 

No caso dos esmaltes termina sendo muito mais controverso. A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) atualmente permite uma quantidade de até de 5% de formol para esmaltes endurecedores de unha, porcentagem atualmente discutida por outras organizações internacionais, que consideram arbitrários os valores de 2,2% até 5% e que tem pedido considerar os esmaltes como qualquer outro cosmético, para ser que a substância seja usado únicamente como conservante. Nós dermatologistas sempre ficamos muito atentos e muitas vezes consideramos que acima de 1% já podemos ver um risco muito maior de sensibilidade e alergia, mas isso não é uma regra – mesmo com quantidades mínimas do produto podemos observar alterações.

• E sobre o câncer ligado ao esmalte?

Temos evidência clara sobre o poder irritativo e alérgico do formol, e sabemos que o leito da unha pode sim absorver substâncias do esmalte, mas o que não sabemos é realmente quanto desse produto é realmente absorvido ou liberado para aumentar as chances de causar câncer. Um estudo como esse é muito complicado de fazer, já que a exposição a essa substância é mais frequente do que imaginamos.

Isso abre as portas para discussões sobre o uso de outros materiais, a segurança que oferecem e as regulações em geral, e quais seriam as substâncias que poderiam substituí-la sem causar outros efeitos nocivos.

Cite algumas característica de unhas danificadas devido ao uso constante de bases com formol.

DRMC >> Com o uso repetido desta substância, encontramos lesões de irritação e alergia crônica . Coceira é muito frequente – tanto na pele como no rosto ou em áreas onde o esmalte entra em contato com o corpo

Os casos mais graves e crônicos, apresentam unhas doloridas e extremamente e frágeis que rompem facilmente ou descascam, descolamento da unha (unha oca), coloração amarelada, crescimento anormal das unhas com deformações, engrossamento e ressecamento da pele embaixo e ao redor da unha e as vezes em outras partes do corpo, fissuras nas pontas dos dedos (com muita dor e as vezes sangramento associado) e ferimentos abertos ou bolhas. Muitos desses sinais e sintomas podem ser confundidos com doenças autoinflamatórias das unhas ou com micose, e precisam de uma avaliação do dermatologista para chegar a um diagnóstico e tratamento correto.

Instagram do Dr. Miguel: @dr.miguelceccarelli
Site do Dr. Miguel: https://www.miguelceccarelli.com/

Desde o início do blog, já recebi incontáveis relatos sobre o uso do formol e até hoje eles não pararam. Pelo contrário, até aumentaram. Pessoas desesperadas atrás de ajuda para saber o que fazer diante uma situação de alergia, dor, unhas ainda mais fracas do que antes e por aí vai. Pessoas que até quase perderam a unha por conta da alergia severa. 
Diante de tudo isso – os milhares de “contras” – eu pergunto? Vale a pena? Como o Dr. Miguel disse acima e eu vivo falando no Instagram, felizmente hoje no mercado existem ótimas bases livres das substâncias alergênicas – como o formol – e que não vão prejudicar as unhas.

Opte por essas bases, opte por cuidar das unhas e mantê-las saudáveis. Não espere que um produto milagroso fará sua unha crescer do dia para a noite e o problema será resolvido. O herói, às vezes, pode ser um grande vilão.

Agradeço novamente ao Dr. Miguel pela participação!

Espero muito que gostem do post e divulguem para quem você sabe que usa as bases com formol ou pretende usar! As informações contidas nele são muito importantes!

Saúde e cuidados, sempre!

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3 Comentários

  • Responder
    Renata Ottoni
    20 de outubro de 2021 at 15:15

    Dani, que pavor!!!
    Ver as fotos das consequencias causadas pelo formol me assustaram bastante.
    Post muito esclarecedor e espero que as pessoas parem de acreditar em tudo o que escutam e comecem a pesquisar antes.
    Um beijo.

  • Responder
    Paty
    20 de outubro de 2021 at 17:23

    Desenvolvi uma alergia severa ao usar um produto chamado “Unha forte.” No site diz que tem % permitida, mas após seu uso fiquei com coceira nas pálpebras e dedos doloridos.
    Agora só posso usar produtos hipo e free.
    Muito obg por esse post Dani, necessário!

  • Responder
    Ruana Prado
    20 de outubro de 2021 at 20:18

    Já usei muito formol, as reações aparentes foram somente amarelamento, ainda bem.
    Parei depois dos relatos mais sérios de reações!!

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